A minha tia é uma baleia é construído em volta do terrível segredo da jovem Tara que é abusada sexualmente pelo pai. O segredo só é adivinhado pela sua prima Ana a dois terços do livro, quando Ana vê um documentário sobre o incesto na televisão e reconhece comportamentos de Tara. O leitor segue os acontecimentos no livro sempre na perspectiva de Ana, que é a narradora da história. O seu relacionamento com Tara é problemático. Desde que Tara e os pais vieram viver para perto de Ana no Cabo do Bacalhau na costa Atlântica dos Estados Unidos, as duas primas são obrigadas a passar muito tempo juntas, na escola, nas suas brincadeiras na praia e em casa dos pais e dos tios. Não se dão muito bem e Ana espanta-se muitas vezes com os estranhos comportamentos e opiniões de Tara. Apesar dos esforços de Ana, Tara é frequentemente intratável, fechada, mal-humorada e até má. Na escola tem maus resultados e parece sempre distraída, para desespero da professora. Veste fatos de banho antiquados em vez de biquínis, proíbe a Ana de olhar quando se despe, quer apenas vestir t-shirts vermelhas porque vermelho quer dizer "pára", colecciona garrafas de rolha que usa para deitar ao mar para mandar mensagens - pedidos de socorro - para a Europa, etc. Piora ainda quando a sua mãe morre. Afasta-se de Ana, passa dias inteiros sozinha nas dunas e não fala com ninguém. Até ao dia em que um grupo de bocas-de-panela - uma espécie de baleia - dá à costa. Ana e Tara participam na operação de salvamento que é orientada por uma bióloga especializada originária da Europa. A bióloga interessa-se pelas duas primas que querem saber tudo acerca de baleias e reconhece os comportamentos e atitudes da Tara porque viveu uma situação semelhante na sua juventude. Mais tarde, pede às primas ajuda no tratamento da pequena baleia Baby que perdeu a mãe. A experiência muda o comportamento de Tara, que pela primeira vez consegue contar a sua história e a seguir procura ajuda para o seu problema.
Mas é altamente injusto para com o livro seguir apenas este fio da história. O livro é muito mais. Desde o início, dá uma descrição belíssima do relacionamento entre duas miúdas entre os dez e treze anos e do ambiente familiar onde Ana apanha todo o género de sinais que algo está mal e que os pais e os tios o sabem mas não lhe contam nada. A história do acostamento e da salvação das baleias é em si uma história fascinante. E sobretudo há a linha que por todo o livro sustenta uma atmosfera de medo e mistério que envolve o segredo no mundo mágico e no mundo real. Tara e os pais vêm viver para a vivenda da praia que segundo a lenda foi a casa da bruxa do mar Goody Hallett. Entre muitas outras coisas, as pessoas supersticiosas do Cabo do Bacalhau contam que a bruxa teria sido uma sereia que aliciava os pescadores para a costa onde naufragavam e que teria petrificado um rapazinho. Ana tenta assustar Tara com histórias sobre Goody Hallett e ameaça que a bruxa transformará a sua boca em pedra se ela contar um segredo. O medo de Tara aumenta quando a sua mãe morre depois de saber da relação incestuosa entre marido e filha: a revelação do segredo pode matar. Mais tarde dá-se conta de que a revelação do segredo a pode separar do pai que ama. Assim, o medo desloca-se do mundo mágico para o mundo real até ao ponto em que Tara encontra a coragem de contar o segredo. Ao falar percebe que a sua boca não se transforma em pedra. Como já referi, as várias linhas narrativas estão entrelaçadas. Sustentam-se mutuamente numa teia que vai ganhando cada vez mais significado pelo uso de simbolismos, metáforas e paralelos à medida que o leitor avança na leitura. No entanto, a "densidade literária", por assim dizer, não obstrui de modo algum uma leitura mais ligeira. De facto, pela claridade do estilo é um livro extremamente acessível para leitores a partir dos treze anos até à terceira idade.