biografia
 
 


Sobre Anne Provoost

Anne Provoost é uma escritora flamenga que na última década se tornou um nome incontornável na literatura neerlandesa e que através das traduções das suas obras vai também ganhando uma projecção internacional cada vez maior. Já não se pode dizer que é uma autora totalmente desconhecida em Portugal, porque um fragmento do seu segundo romance foi publicado pela Afrontamento na antologia Lá longe, a paz, A guerra em histórias e poemas (2001).
Anne Provoost nasceu em Poperinge, na Bélgica, em 1964. Ainda antes de poder ler e escrever já inventava histórias que ditava aos pais e desde jovem que escrevia muito: contos e diários, actividade que abandonou quando foi estudar Línguas Germânicas. Porém, o vírus da narrativa voltou quando passou uma semana doente na cama. Escreveu um conto que enviou para um concurso literário e que ganhou o primeiro prémio. Depois dos estudos de Germânicas, fez ainda um ano de Pedagogia - já com a ideia de vir a ser escritora. A seguir viveu durante algum tempo nos Estados Unidos, onde trabalhou num infantário e recomeçou a escrever: contos para revistas infantis flamengas e americanas, e uma primeira versão do seu livro de estreia Mijn tante is een grindewal (versão portuguesa: A minha tia é uma baleia, Edições Afrontamento, 2002). De volta à Bélgica, trabalhou em part-time numa organização para intercâmbios internacionais de estudantes do ensino secundário. Desde meados de 1995 que se dedica à escrita a tempo inteiro. Vive com o marido e três filhos em Antuérpia.

Anne Provoost estreou-se em 1990 com A minha tia é uma baleia, que ganhou dois prémios de literatura juvenil, um atribuído por um júri de adultos, outro por um júri de jovens leitores. Desde logo foi dito que era uma obra que lançava uma ponte entre as literaturas juvenil e adulta. Tanto pelo estilo e pelo enredo complexo de várias linhas narrativas que são meticulosamente desenvolvidas e entrelaçadas, como pela temática que aborda problemas de jovens que, embora vistos da perspectiva dos jovens protagonistas, também dizem respeito a adultos. Anne Provoost escreve sobre jovens, mas de maneira alguma exclusivamente para jovens. Consegue retratar o seu mundo, pensamentos, comportamentos e desenvolvimento com uma invejável autenticidade e não tem medo de assuntos incómodos.

A seguir a A minha tia é uma baleia, Anne Provoost publicou três livros para leitores principiantes e uma peça de teatro. O segundo romance, Vallen (Cair), saiu em 1994 e teve um êxito estrondoso. Foi cinco vezes galardoado (três vezes dentro de dez dias) e vai actualmente na décimasexta edição. Entretanto foi traduzido para nove línguas e adaptado ao cinema (Falling, 2001). No livro vemos os acontecimentos pelos olhos de Lucas, um jovem de dezasseis anos. Passou com a mãe as férias de verão na casa do seu falecido avô numa vila do sul de França, onde conheceu o carismático líder de um grupo da extrema-direita. Impressionado pela sua retórica e pelas suas mostras de amizade, viu-se implicado em acções contra imigrantes. Ao mesmo tempo ficou a saber aos bocadinhos como o avô durante a guerra denunciou aos ocupantes alemães um grupo de crianças judias e as freiras que as escondiam no convento ao lado da casa dele. Quem lhe contou os factos foi Caitlin, uma amiga de férias da mesma idade que passava algumas semanas no convento e que é filha de uma sobrevivente da deportação. Lucas afastou-se do movimento mas depois viu-se apanhado numa trama em que é culpado de um acidente de automóvel em que a bailarina Caitlin perdeu um pé. O livro mostra quase no estilo de uma reportagem como Lucas foi vítima da sua ignorância. Se tivesse conhecido o segredo (também aqui um segredo!) acerca do passado do avô antes de se envolver com o grupo… Mas a força do livro é exactamente o não se ocupar muito de segundos pensamentos ou reflexões sobre o que aconteceu. Lucas limita-se a contar como as coisas aconteceram num passado muito recente, quase como se estivesse a vivê-los no momento. Cabe ao leitor definir a sua própria posição perante as ocorrências através de uma identificação inevitável com Lucas. Assim, vive um confronto duro com as ideias e práticas da extrema-direita, com a questão de imigrantes económicos e políticos e com os perigos da ignorância.
Os dois primeiros romances situavam-se no presente e tratavam de situações actuais de uma forma relativamente explícita. Nos dois últimos romances, a escritora optou por cenários históricos e por uma abordagem de problemas actuais de uma maneira menos directa, ligada ao mundo mítico e do conto de fadas. Para o seu terceiro romance, De Roos en het Zwijn (A Rosa e o Suíno), publicado em 1997, adaptou o conto de fadas da Bela e do Monstro para, situado num ambiente medieval e mágico e com os contrastes fortes e os efeitos duros e cruéis do conto de fadas, descrever a descoberta da sexualidade pela jovem e bela protagonista e o seu desenvolvimento afectivo da dependência para o amor. No mais recente romance, De Arkvaarders (Os Navegadores da Arca), publicado em 2001, recriou a história bíblica do dilúvio e da Arca de Noé, vista da perspectiva de uma rapariga de um outro povo que é testemunha dos acontecimentos e que entra clandestinamente na arca. Os problemas dos construtores da arca, da selecção, do arbítrio divino que só quer salvar uma família, da sobrevivência dos embarcados, etc. levantam uma quase interminável série de questões sobre a existência e sobrevivência humanas que do mundo mítico se projecta para o mundo de hoje.
Como se vê, os jovens e os seus problemas continuam a ter o papel principal nos romances e continua bem claro que os livros não se destinam apenas a um público juvenil. Pela sua forma e temática ultrapassam a divisão entre as literaturas juvenil e adulta. Conquistar um público jovem e adulto e com cada romance ganhar prémios nacionais e internacionais de ambos os grupos de leitores é obra. Actualmente, Anne Provoost é uma das escritoras mais premiadas e traduzidas da literatura (juvenil) neerlandesa.

Arie Pos - Março 2002