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Anne Provoost é uma escritora flamenga que na
última década se tornou um nome incontornável na
literatura neerlandesa e que através das traduções
das suas obras vai também ganhando uma projecção
internacional cada vez maior. Já não se pode dizer que é
uma autora totalmente desconhecida em Portugal, porque um fragmento do
seu segundo romance foi publicado pela Afrontamento na antologia Lá
longe, a paz, A guerra em histórias e poemas (2001). Anne Provoost estreou-se em 1990 com A minha tia é uma baleia, que ganhou dois prémios de literatura juvenil, um atribuído por um júri de adultos, outro por um júri de jovens leitores. Desde logo foi dito que era uma obra que lançava uma ponte entre as literaturas juvenil e adulta. Tanto pelo estilo e pelo enredo complexo de várias linhas narrativas que são meticulosamente desenvolvidas e entrelaçadas, como pela temática que aborda problemas de jovens que, embora vistos da perspectiva dos jovens protagonistas, também dizem respeito a adultos. Anne Provoost escreve sobre jovens, mas de maneira alguma exclusivamente para jovens. Consegue retratar o seu mundo, pensamentos, comportamentos e desenvolvimento com uma invejável autenticidade e não tem medo de assuntos incómodos. A seguir a A minha tia é uma baleia, Anne
Provoost publicou três livros para leitores principiantes e uma
peça de teatro. O segundo romance, Vallen (Cair), saiu em
1994 e teve um êxito estrondoso. Foi cinco vezes galardoado (três
vezes dentro de dez dias) e vai actualmente na décimasexta edição.
Entretanto foi traduzido para nove línguas e adaptado ao cinema
(Falling, 2001). No livro vemos os acontecimentos pelos olhos de
Lucas, um jovem de dezasseis anos. Passou com a mãe as férias
de verão na casa do seu falecido avô numa vila do sul de
França, onde conheceu o carismático líder de um grupo
da extrema-direita. Impressionado pela sua retórica e pelas suas
mostras de amizade, viu-se implicado em acções contra imigrantes.
Ao mesmo tempo ficou a saber aos bocadinhos como o avô durante a
guerra denunciou aos ocupantes alemães um grupo de crianças
judias e as freiras que as escondiam no convento ao lado da casa dele.
Quem lhe contou os factos foi Caitlin, uma amiga de férias da mesma
idade que passava algumas semanas no convento e que é filha de
uma sobrevivente da deportação. Lucas afastou-se do movimento
mas depois viu-se apanhado numa trama em que é culpado de um acidente
de automóvel em que a bailarina Caitlin perdeu um pé. O
livro mostra quase no estilo de uma reportagem como Lucas foi vítima
da sua ignorância. Se tivesse conhecido o segredo (também
aqui um segredo!) acerca do passado do avô antes de se envolver
com o grupo
Mas a força do livro é exactamente o não
se ocupar muito de segundos pensamentos ou reflexões sobre o que
aconteceu. Lucas limita-se a contar como as coisas aconteceram num passado
muito recente, quase como se estivesse a vivê-los no momento. Cabe
ao leitor definir a sua própria posição perante as
ocorrências através de uma identificação inevitável
com Lucas. Assim, vive um confronto duro com as ideias e práticas
da extrema-direita, com a questão de imigrantes económicos
e políticos e com os perigos da ignorância. Arie Pos - Março 2002 |
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