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De: A minha tia é uma baleia (Edições Afrontamento,
2002)
5.
Ao princípio levávamos o tio Tony, a tia
Tânia e a Tara a todo e qualquer lado. Tinham de conhecer as lojas
de Truro, o banco, a biblioteca e a escola. Quando passeávamos
pelas ruas, sentia as pessoas a olharem para nós. Formávamos
um cortejo estranho. Como sempre, eu ia uns dez metros à frente
do papá e da mamã, que andavam de mãos ou braço
dados. Lembrava-me de como, quando ainda era uma miúda pequena,
andava sempre entre eles, com as minhas mãozitas bem apertadas
nas deles. Deixavam-me saltar e às vezes voar... não me
fartava daquilo.
"Agora chega", dizia o meu pai por fim. "Agora a Ana tem
de andar. O papá tem o braço cansado, e a mamã também".
"Sim, o meu também", confirmava a mamã quando
eu a olhava com um ar suplicante. Nesse momento decidi que já era
grande demais para dar a mão. Desde então, antes queria
andar à frente, para não ter de ouvir as suas conversas
maçadoras sobre novas máquinas de lavar roupa e segundas
primas doentes. Quando ia à frente, podia escolher a rua que íamos
tomar, e chegava sempre primeiro se houvesse alguma coisa interessante
para ver.
Tinha pensado que a Tara andaria comigo à frente. Mas percebi logo
que os Myrold andavam de uma maneira diferente. A tia Tânia e o
tio Tony não passeavam um ao lado do outro mas um atrás
do outro. Às vezes, a tia Tânia ia à frente, outras
vezes era o tio. A Tara, infalivelmente, dava a mão ao pai. Tinha
com ele as conversas mais infantis que eu podia imaginar.
"Truro fica à beira-mar, não fica, papá? Finalmente
moramos à beira-mar!". Ao pé dos semáforos,
gritava descaradamente: "Vermelho! Olhe papá, temos de parar.
Vermelho quer dizer "pare". Toda a gente pára. Logo,
se mudar para verde, podemos continuar."
Envergonhava-me tanto por fazer parte deste cortejo, que andava aí
uma meia rua adiante dos outros.
- Ana, entramos aqui - chamou-me a mamã.
Acenava-me à entrada de um prédio enorme. Regressei e segui-a
pela porta de vidro. Dizia HABITAÇÃO.
- Têm umas casas para alugar. O António só vai ver
o que há.
O tio Tony falou alguns minutos com a menina atrás do balcão.
A Tara estava mesmo encostada a ele, ao passo que a tia Tânia esperava
sentada numa cadeira. A funcionária mostrou-lhe fotografias de
casas e prédios e, de vez em quando, o tio Tony tomava notas.
De repente, a Tara pareceu ficar com a atenção muito aguçada.
Falava animadamente e não parava de dar apertos na mão do
pai, enquanto abanava a cabeça. Ele olhava para ela e, em seguida,
de novo para a funcionária. Ela puxara-lhe pela camisa e ele dizia
que sim com a cabeça. Passei minutos a olhá-los, sem atentar
nas outras pessoas na sala. Vi como ele lhe massajava os ombros e se inclinava
para ela enquanto lhe falava. Era alto e magro, mas ao mesmo tempo bonito.
A sua t-shirt soltou-se das gangas, à frente. Piparoteava os dedos
como um cowboy e trazia uma bandana em volta do pescoço. Desejei
ter um papá como o tio Tony.
Pouco depois, os três vieram contar-nos: há um apartamento
para alugar no Prédio dos Pescadores, mesmo por baixo do First
Bank. É grande, mas bastante caro, e não tem jardim.
- Têm ainda uns outros apartamentos que não valem a pena
por terem um só quarto, o que é tão mau como o nosso
apartamento em Cleveland. E depois ainda há... isto... - disse
ele, e percorreu rapidamente os papéis que tinha nas mãos.
Puxou um pequeno papel branco que tinha a sua letra.
- Ela disse-me que a vivenda na praia, não longe de vocês,
está finalmente para alugar. Alguém a comprou e o mobiliário
está para ser vendido em hasta pública na quinta-feira.
A renda vai ficar bastante baixa, se bem que eu não saiba porquê.
Vi num ápice que o papá e a mamã se entreolharam.
"Goody Hallett", pensei logo. "Numa noite, a Tara transformar-se-á
numa pedra e ficará para sempre ao lado do pequeno Filipe. A tia
Tânia e o tio Tony vão celebrar o Natal durante todo o ano
e comem pó dos pratos verdes e vermelhos."
- Ouvi dizer que a casa é belíssima, António - disse
o papá, pousando uma mão no ombro do tio. - É tremendamente
grande; vai ser um enorme contraste com a anterior. Mas, claro, não
precisas de usar todos os quartos.
O tio António dizia que sim com a cabeça, e a Tara estava
de novo calada como dantes.
- Por que é que a renda é tão baixa? - perguntou
a tia Tânia da sua cadeira.
- Histórias - disse a mãe secamente. - Histórias
estúpidas de bruxas e de crianças petrificadas. Uma vez
uma criança foi morta por um habitante da casa. Quando o caso veio
a público, toda a família deixou a casa em poucas horas.
Por terem deixado tudo para trás, e se poder ver pelas janelas
as aranhas a rastejarem pelas cadeiras e pelos tapetes, ficou sempre com
um ar assombrado. Toda a história se passou há quase trinta
anos, mas os pescadores com as suas fantasias populares continuam a meter
medo às crianças da escola. A gente daqui é simplesmente
maluca.
- Não tenho medo - disse a Tara, de repente. O papá sorriu-lhe
e passou-lhe a mão pelo cabelo. Rapidamente deu um passo para trás.
A mão do papá ficou pendurada no ar por um instante, e a
seguir retirou o braço com uma tossidela curta.
- Claro que não tens medo - disse, para disfarçar. - A vivenda
da praia é a casa mais bonita de Truro.
Após a venda em hasta pública, preocupei-me
principalmente com os presentes.
- Não venderam os presentes que estavam por baixo da árvore
de Natal - disse, excitada, à mamã. Sorriu. Estava à
minha espera e do papá para o jantar. Tinha no forno a minha pizza
favorita.
- Este António não sabe o que faz - disse o papá
com um rosnido grave. Deitou o casaco para cima da cadeira e começou
a desapertar os cordões dos sapatos. A mamã continuou sentada.
- Lá comprou umas coisas, mas podia ter feito muito melhor. Comprou
duas camas. Vê só, duas camas e dois colchões. E não
foram além dos vinte dólares, mais dez para os colchões.
O gajo é parvo. Mora numa casa com dez quartos e limita-se a comprar
duas camas. Nem sequer pode alojar hóspedes.
Pegou num naco de pão, e a mamã deu-me uma fatia também.
- Depois entrou no lance para uma mesa de cozinha e quatro cadeiras. E
armários, se não me engano, comprou cinco a eito. E ainda
queria mais, mas o lance estava a subir demasiado. Não podia ser
de outra maneira, pois eram destas peças de estilo antiquado. Depois,
claro, havia o mobiliário de carvalho do salão e as antiguidades.
Atingiram preços exorbitantes. O Robert diz que o lance mais alto
foi pelo quadro e veio do filho da família. Tudo pelo telefone.
Todas as antiqualhas ficaram para o António e a Tânia. Só
foram tirados os móveis e a roupa branca. E naturalmente todas
as porcelanas, os estanhos, e por aí fora. Tudo o que era de valor,
foi-se. Mas bocados de tapete, candeeiros velhos, estantes, caixas, cestas,
livros e potes, têm quanto baste para a vida inteira.
- E os presentes! - gritei com entusiasmo.
- Sim, e além disso ainda ficaram com essa enorme árvore
de Natal e todas essas decorações, papéis e tralhas,
bolas de Natal desfeitas e vidros partidos. Devem ter muito para arrumar.
- O papá pensa que eu posso ficar com um dos presentes que estão
debaixo da árvore de Natal?
A mamã deu-me outra fatia de pão e disse: - Ana, agora tudo
pertence à Tânia e ao Tony. O que fizerem com essas coisas
é com eles. Nesses embrulhos só deve haver umas ninharias.
Eu não acreditava em ninharias. Ninharias não existiam.
Na casa de Goody Hallett tudo era especial e interessante, portanto ninharias
não podiam ser. No pior dos casos, podiam ser coisas feias ou quebradas,
ou uma estúpida chave de parafusos com uma turquês qualquer.
Mas certamente seria tudo muito delicado e valioso. O embrulho grande
talvez fosse uma caixa de madeira com uma chaveta. Ao abrir, a bailarina
levantar-se-ia, para começar a dançar ao som da suave musiquinha
de órgão que lhe vinha sob os pés pontiagudos. E
o embrulho pequeno devia ser uma caixa cheia de carimbos ou uns livros
de aventuras numas ilhas cheias de dinossauros. E o mais pequeno de todos
conteria, provavelmente, uma caixinha de metal com um visor onde apareciam
a data e o dia do mês sempre que fosse virada. Ou um porta-chaves
com uma janelinha para abrir, com a fotografia da avó lá
dentro. Ou uma caneta na qual, enquanto se escrevia, um coche puxado por
cavalos em miniatura andava de um lado para o outro. Ou um anel com uma
pedra amarela.
"Mas será que se pode tocar neles!?" pensei de repente,
em pânico. "E se a mão com que se abrisse a caixa de
música petrificasse? Ou os olhos ao ler o livro de aventuras? Ou
o dedo com o anel amarelo?"
- Sendo assim, talvez fosse melhor se a Tara guardasse todos os presentes
para si - disse com uma voz grave, e a mamã anuiu com aprovação.
- Daqui em diante, a Tara mora na vivenda da praia e não aqui?
- perguntei ainda. A mamã fez "hmmm" e o papá
repetiu pela terceira vez nesse dia que achava estranho o António
não querer ficar alojado com eles nem mais uma hora do que o necessário.
- A casa ainda está uma ruína - disse - e mesmo assim já
querem ir viver para lá. Não sei que bicho lhes mordeu.
Eu apenas conseguia pensar como estava feliz por ter a minha cama toda
de novo só para mim.
Ainda nesse dia, vieram os Myrold buscar todos os seus haveres. O tio
Tony estava a pôr os seus discos em ordem numa caixa, quando a Tara
começou a dizer que queria brinquedos.
- Quando for viver sozinha, não vou ter mais nada para brincar.
Tudo pertence à Ana.
O tio falou-lhe numa voz reconciliadora.
- Compro-te coisas novas, querida. Tu já sabias que era assim,
não sabias?
- Não quero coisas novas. Quero isto! - gritou, apontando para
os meus puzzles e barcos em miniatura no quarto. Começou a bater
furiosamente com os pés. A mamã olhou irritadamente para
a irmã, mas esta continuou a embrulhar as suas roupas de Verão
como se nada fosse.
- Tara, querida, porque não pedes à Ana que te empreste
umas coisas, em vez de fazeres uma cena assim? - disse o tio Tony com
uma voz cheia de paciência. A cara dela descontraiu.
- Quero a Boneca Preta - gritou. Apanhei um susto. Jamais brincava com
a Boneca Preta, mas, quando era pequena, fora a minha preferida e não
queria deixá-la nas mãos da Tara.
- Quero a Boneca Preta - berrou.
- Ana? - disse o tio Tony. Fixou-me demoradamente. A mamã disse
que sim com a cabeça, e eu soube que já não tinha
escolha.
- Ela pode levá-la - disse. - Já não brinco com ela.
Quando a Tara saiu de casa com a Boneca Preta de pernas para o ar debaixo
do braço, senti-me roubada. Mas, ao mesmo tempo, senti também
que ela era poderosa, e que podia alcançar tudo o que quisesse.
Percebi desde esse momento que seria impossível
evitar a Tara. Agora que já não vivia comigo, eu queria
saber tudo o que fazia. Tinha de ver a casa, todos os quartos no sótão,
e queria estar presente quando ela abrisse os presentes. Queria ajudar
a arrumar e a pôr os livros nas estantes, as cestinhas nas prateleiras
e os potes nos armários. Por todos os lados encontraria dedinhos
e pézinhos de pedra, mas isso é que era emocionante. Não
podia deixar escapar essa oportunidade. A Tara tinha de vir a ser minha
amiga.
Na manhã seguinte, quando fui à procura da Tara, esta estava
sentada à frente da casa a fazer desenhos no chão com enormes
pedaços de giz. Já tinha feito alguns gatafunhos esquisitos
na parede da casa - pareciam ondas com pontos agudos - e havia mais nas
persianas. Aqui e ali desenhava um animal por cima, um peixe ou um pássaro,
e uma coisa com quatro pés que eu não reconhecia.
- Tenho giz - gritou antes de eu poder dizer fosse o que fosse. - Estou
a fazer desenhos com ele.
Pus-me muito perto ao seu lado e olhei para o cabelo fino na sua cabeça
inclinada. Ergueu-se.
- Se te fores embora neste instante, dou-te um bocado - disse. Estava
de pé à minha frente como um anão mau, e eu não
percebia muito bem o que ela dizia. Gostaria muito de ter um pedaço
de giz, mas não queria ir-me embora de maneira nenhuma. Tinha vindo
pelos presentes, e não ia sair dali antes de ter visto o que havia
nos embrulhos.
- O que havia nos embrulhos? - perguntei sem rodeios.
Aproximou-se de mim com um pedaço de giz.
- Para ti - disse. - Toma.
Peguei no pedaço de giz e olhei-o. Olhei-o durante muito tempo,
porque era a coisa mais estranha que tinha visto na minha vida. Demorou
algum tempo até que o reconhecesse. Mas então compreendi,
e gelou-se-me o sangue nas veias: era uma mãozinha de pedra. A
mãozinha de uma criança. Parecia até que ainda estava
viva e se mexia.
- O pequeno Filipe - consegui dizer com dificuldade. - É a mãozinha
do pequeno Filipe.
- Ora - disse a Tara - era apenas uma estúpida estatueta de gesso.
A mãe achou-a feia, e o pai então fê-la em pedaços
para eu poder escrever com isto. Agora posso desenhar o mar por todo lado,
e mais tarde acrescento palavras. Mas agora vai-te embora. Vai fazer desenhos
na tua própria casa.
Deitei a mãozinha do pequeno Filipe ao chão e voltei a casa
pelas dunas. Desejava do fundo do coração que a Tara nunca,
nunca tivesse vindo.
Translation Arie Pos

Editor: Edições Afrontamento
Preço: 12.5 (2,506 Esc)
Ano de Publicação: 2002
Formato: 23 x 15 x 1
Suporte: Livro
Disponibilidade: Disponivel
Número de páginas: 192
ISBN: 9723604507
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